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1733 – Nasce uma nova aglomeração no extremo sul do país.

Nós, os porto-alegrenses



Carlos Augusto Bíssón

Já é lugar-comum. Porto Alegre não tem as belezas naturais do Rio e de Salvador. Muito menos a grandiosidade e o variadíssimo leque de serviços de São Paulo. E como a ausência de referenciais nítidos faz com que só consigamos avaliar a capital do Rio Grande do Sul por comparação, pode-se dizer que, como espaço urbano, Porto Alegre não tem sequer o charme e a organização impecável de Curitiba. Até exageram nossa falta de atrativos. A atriz cinematográ­fica italiana Valéria Golino (Rain Man, Top Gang I e II), que esteve aqui, disse à revista SET que tinha conhecido "a cidade mais feia do Brasil”...

A falta de um perfil definido que tome a cidade chamativa chega a criar situações curiosas. Há quem diga, por exemplo, que a capital gaúcha tem potencialidades turísticas inexploradas. Cidade à beira das águas, Porto Alegre preferiu isolá-las através de um muro em vez de criar uma estrutura de lazer que aproveitasse essa paisa­gem privilegiada. A maioria de nossos conjuntos arquitetônicos de valor histórico e estético foram postos abaixo pela febre modernizadora dos anos 50, 60 e 70. O que restou (Theatro São Pedro, prédio da Tumelero em frente à rodoviária, etc.) é muito bonito, mas não em número suficiente para atrair visitantes. O mesmo se pode dizer do tão decantado pôr-do-sol nas águas do Guaíba, fenômeno roti­neiro num país onde as grandes cidades ficam no litoral. O que fazer, então, para entreter os que nos visitam? Com o objetivo de contribuir para a resolução do impasse provocado pela ausência do que mostrar em Porto Alegre, o vereador Airto Ferronato (PMDB) apresentou projeto de lei, que obriga a inclusão dos cemitérios no roteiro das agências que trazem turistas a Porto Alegre.

Foi, corno já disse, uma proposição curiosa, mas não desprovi­da de mérito — o cemitério de Pére Lachaise (Paris) é muito visitado por nele estarem sepultados Chopin, Balzac e Proust, entre outros. Os cemitérios de Porto Alegre são um verdadeiro museu a céu aberto graças à beleza dos túmulos — sobretudo os da Santa Casa, que abrigam personalidades de relevo na história gaúcha, como Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado e Maurício Cardoso. Sem dú­vida, neles estão e estarão enterrados o que de melhor a cidade tem a oferecer: os próprios porto-alegrenses, seja por nascimento ou adoção.

Excentricidades à parte, quando se diz que a capital tem misté­rios que não se desvendam na superficialidade do primeiro olhar, quando se mencionam as milhares de histórias vividas no Centro, no Bom Fim ou na Azenha, não se está falando de concretude gélida dos monumentos e prédios de Porto Alegre. É o fator humano que está sendo sugerido nessas divagações. A partir disso, o que entra em cena aí é o impalpável, o imponderável e o invisível "cosido pela agulha da imaginação", conforme Machado de Assis em outro con­texto, e que não pode ser fotografado e mumificado em estatísticas. É o jeito da cidade expresso em sua gente, na qualidade dos que nela habitam.

E o que é ser porto-alegrense? Alguns já formularam conceitos, outros negam a existência de tal tipo. Como gosto de arriscar opi­niões, vou me filiar aos primeiros. Talvez a essência da gente de Porto Alegre esteja num misto de timidez e leve ironia, que cumpre o papel de filtrar a acidez do espírito crítico e a belicosidade do gosto pela polêmica. Um pouco como os textos de Luis Fernando Veríssi­mo e a poesia de Mario Quintana, não por acaso as duas personali­dades mais representativas e festejadas da cidade.

Esse comportamento indubitavelmente contido pode ser a for­ma de Porto Alegre se diferenciar tanto da propalada (no centro do País) arrogância dos gaúchos — notadamente os da fronteira — quanto dos modelos culturais descarregados por Rio e São Paulo via televisão. Ou, então, é resultado do fato de que em cada três porto-alegrenses que trabalham pelo menos um é funcionário público municipal, estadual ou federal. Daí esse jeito aparentemente acanhado que faz com que pareçamos panacas diante da extroversão dos que nasceram em metrópoles maiores. Na verdade, essa conduta cautelosa é a manha do funcionário público no trato com o poder político, transplantada para o conjunto das relações sociais. Ouvir e parecer submisso traz lá seus rendimentos e ficar calado não dimi­nui o senso de humor. Escolher o que se vai dizer é fundamental, pois pode enterrar ou alavancar possibilidades de ascenção social. O que, nesta cidade de 1.300.000 habitantes, se materializa também através da política partidária.

E como gostamos de política! Como não apreciá-la se em razão dos motivos expostos parecemos tão talhados para ela? Certamente, aqui estão as bases mais aguerridas e ideologicamente posicionadas dos grandes partidos nacionais (PT, PMDB, PPR). Temos um arca­bouço cultural invejável se comparado às demais capitais brasilei­ras, fruto da excelência do nosso sistema educacional do passado. Isto, somado à nossa proximidade geográfica e intelectual com os países do Prata, nos permite enxergar o Brasil com um distancia­mento ímpar, ideal para quem tem a ambição de formular projetos para o País. Lembram de Getúlio e o pessoal que fez a Revolução de 30?

Nós, porto-alegrenses, somos tão cordiais quanto os mineiros e bem mais hospitaleiros do que os agressivos cariocas de hoje — a quem antes invejávamos, pois já vimos o Rio como nossa segunda casa. Mas que ninguém se engane com nossa polidez e a presteza com que oferecemos o chimarrão e convidamos o visitante para um bate-papo em nossa casa. Como disse certa vez o cruz-altense Justino Martins, quando um gaúcho (e porto-alegrense) respira fundo por não gostar do que ouviu e pronuncia aquelas palavras — "Pra te falar com toda a franqueza..." — podem ter certeza que vem patada. E de precisão mortífera.

Queixamo-nos da falta de opções de lazer em Porto Alegre buscando refúgio nos prazeres da mesa e na fantasia. No primeiro caso, lotamos a cidade de churrascarias, pizzarias, lanchonetes e — mais um mistério — restaurantes chineses. Deve haver uns 20 em Porto Alegre, sem nenhuma explicação imigratória do porte da ale­mã e da italiana que os justifique. No segundo, pode-se mencionar os 38 cinemas da capital, média altíssima de um para cada 35.000 habitantes, o que nem São Paulo conseguiu atingir. Aja mencionada Curitiba tem apenas 15 cinemas, embora sua população seja equiva­lente à nossa. Copiamos humilhantemente as inovações urbanas propostas pelos paranaenses — corredores de ônibus, calçadão, rua das flores — mas nos vingamos deles pelo peso de nossa tradição cultural. Contudo, se já estamos nos medindo com uma cidade que há vinte anos sequer considerávamos, tal a nossa liderança no sul do País, é porque alguma coisa não está funcionando direito por aqui, apesar do valor de nossa gente.

Será que Porto Alegre não está excessivamente orgulhosa de sua condição de pequena grande metrópole? Hoje, somos apenas a décima primeira cidade brasileira. Temos 250.000 favelados que, ao contrário do que acontece na ex-Cidade Maravilhosa, não estão suficientemente próximos dos bairros de elite para causar indigna­ção e temor, mas prometem se tornar uma realidade socialmente explosiva nos próximos anos. E um quarto de nossa mão-de-obra está desempregada, gerando o curioso fenômeno dos "mordedores" — pessoas que gentilmente se oferecem para cuidar de nossos carros nas portas dos bares, cinemas e restaurantes, quando poderiam estar nos assaltando.

Talvez, nós, porto-alegrenses, precisamos dar um puxão de orelhas em nós mesmos. Esquecer o Grêmio, o Internacional, as churrasqueadas, cervejadas e os fins-de-semana no sítio (que nos remetem ao nosso irremediavelmente perdido passado rural) e pas­sar a nos perguntar o que pretendemos desta cidade.

E é aqui que retorno ao ponto inicial deste artigo — as dificul­dades que a cidade tem em se estabelecer como polo turístico e cultural no País. Não tenho a pretensão da originalidade ao afirmar que um dos problemas mais instigantes de Porto Alegre é a sua incapacidade de criar um discurso que a justifique como cidade e, a partir daí, definir metas políticas que reforcem este discurso.

Lembro-me de minha infância no Rio, passada na ainda não-degradada Copacabana, e a surpresa com que travei contato com a Ipanema de Tom Jobim, Vinícius de Morais e do pessoal do Pasquim. Á mim, criança, me pareceu desértica e destituída de interesse, se comparada ao fervilhar do bairro onde vivia. A Ipanema construída pela chama daqueles artistas era ficcional e é possível que, exata­mente por ser inicialmente imaginária, tenha entrado no mapa cul­tural brasileiro. Evidentemente, as razões para que não sejamos a cidade que pretendemos não passam exclusivamente por aí, mas acredito que já seria um bom começo estabelecermos qual deve ser o caminho trilhado pela capital.

Para onde vamos? Porto Alegre tem quadros de alto nível em todas as atividades profissionais, muitos deles exportados para os mais distantes confins do Brasil. A cidade é uma fonte inesgotável de talentos, mal aproveitados em sua maioria. O Mercosul já está chegando e ainda não definimos o nosso papel na realidade da integração. Talvez caiba à capital dos gaúchos, sobretudo, abrir-se para o País e o exterior, ser mais ambiciosa, como São Paulo, e tão organizada como Curitiba. O que precisamos é de determinação política e vontade de romper com a estagnação. Só assim teremos uma cidade com a qualidade de vida condizente com o padrão de excelência de seus habitantes.

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