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1783 - Praça da Alfândega

1783 – julho, 02 - Praça da Alfândega - Construção do cais junto à Praça (da Quitanda) que se formara no ventre de uma pequena enseada às margens do Guaíba, dando origem ao nome Rua da Praia, e que viria a se constituir na Praça da Alfândega. Nesta época a pequena vila se desenhava ao longo da espinha dorsal da elevação peninsular que avança sobre as águas, onde se construíam as melhores moradias que mais tarde dariam lugar às Mansões da Rua Duque de Caxias. A cidade se limitava das margens do Guaíba aos muros, junto aos quais se erigiria a Santa Casa de Misericórdia. Lá embaixo, a Várzea, que daria origem à Redenção. Na hinterlândia urbana três Praças disputavam o lazer da população: A Praça que seria denominada da Matriz, em torno da qual iam acomodando-se os lugares simbólicos da autoridade e da fé, a Praça do Portão, na extremidade da Duque, hoje Praça Conde de Porto Alegre e a Praça de Alfândega, que acabará, mercê da efervescência comercial e boêmia da Rua da Praia, no cartão postal da cidade. Em 1883 o nome da Praça foi alterado para Praça Senador Florêncio, em homenagem ao político e senador do Império, falecido em 1881. Em 1912, outra mudança: a demolição do prédio da Alfândega, na beira do antigo cais e o aterro de 100 metros de largura sobre o rio deram maior magnitude ao conjunto do espaço urbano em torno da Praça. O grande acontecimento da Praça da Alfândega, desde 1955, sempre na segunda quinzena do mês de outubro, é a Feira do Livro, um dos maiores eventos culturais do Rio Grande do Sul, Em 2014 realizou-se a 60ª. Feira do Livro, organizada pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), atraindo milhares de visitantes. Os monumentos abundam, uns apoteóticos, como o dedicado ao General Osório, com sua incitação à paz, que lemos desde que aprendermos a ler: “ O dia mais feliz da minha vida será aquele em que os arsenais queimarem suas armas e que se instaure a paz entre os homens de boa vontade”. Outros, evocativos, como as estátuas em bronze, de Stockinger acomodando , num banco, os poetas Drummond de Andrade e Mário Quintana, o Poeta maior da cidade.


Destaque também a José Bertaso, Diretor da Livraria do Globo pela sua contribuição à cultura rio-grandense. Jamais me cansei de parar, também, diante de uma placa de bronze, a um canto da Praça, com o registro da Carta Testamento de Vargas e que ali foi depositada


Acima E/D – Prefeito POA, Sen. C.Buarque PDT, e dois não identificados. 2012*

... no local da Carta Testamento, na Praça da Alfândega ...

*A mulher é a falecida Lícia Peres, viúva de Glênio Peres.


Na década de 1950 a Praça da Alfândega foi perdendo sua majestade, sobrepondo-se sobre ela um gigantesco prédio da CEF inaugurado na década de 70. Isto coincidiu com a crise nos grandes cinemas em torno à Praça, como o Imperial e o Guarani e o fechamento de cafés tradicionais como o Matheus, patrono das madrugadas com seus suculentos baurus. Em 1967 um grande incêndio destruiu o prédio do GBOEx, que sediava o antigo Grande Hotel, já fechado há dez anos, e no último piso o movimentado clube social dos militares, o Círculo Militar. Foram, em seguida, retirados os bondes e veículos da Rua da Praia substituindo-se a paisagem pela nova configuração dos centros metropolitanos em todo o país: proliferação de comércio ambulante, ocupação dos bancos da Praça por marginais e drogaditos, além de meretrizes e da Praça por filiais de Agências bancárias que matam os espaços recreativos. . Em 1979, as Praças Senador Florêncio e Praça Barão do Rio Branco, mais atrás, foram unificadas, tudo consolidado grande calçadão .

Ver de perto lugares – Praça da Alfandega - video



Panorama geral da Praça da Alfândega em 1929.

Acesso a 22 dez 2014


Praça da Alfândega



Praça histórica do final do século XVIII surgiu com o núcleo inicial da cidade, sempre ligada ao lago e às atividades trazidas por ele. O antigo porto fluvial da cidade produzia uma grande movimentação no pequeno povoado, que contava, então, com uma pequena capela dedicada a São Francisco, provavelmente situada também na praça, com sua fachada voltada para as águas. Com o desenvolvimento do burgo, a capela perde o seu lugar, a sede religiosa foi deslocada para a praça situada no alto da colina, onde foi construída a matriz que lhe deu o nome.

Em 2 de julho de 1783 os vereadores determinaram que se construísse um cais de pedra junto ao rio para facilitar o desembarque de passageiros e mercadorias. Em 1804 o Governador da Província, Paulo da Gama, ordenou que se ampliasse o ancoradouro através da construção de uma ponte sobre o rio, com cais e trapiche, obra notável por suas dimensões, com 24 pilares de cantaria adentrando o leito fluvial que possibilitava o desembarque de sumacas e iates de grande porte. Já nesta época havia uma praça defronte ao trapiche, chamada de Praça da Quitanda junto ao prédio da primeira Alfândega da cidade (na Rua da Praia, esquina Rua General Câmara) onde se aglomeravam comerciantes e quitandeiros.

O viajante Saint-Hilaire, em 1820, assim a descreveu:

“É na Rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se laranjas, amendoim, carne seca, molho de lenha e de hortaliças, principalmente, couve. Como no Rio de Janeiro, os vendedores são negros – grifo nosso. Muitos comerciam acocorados junto à mercadoria à venda, outros possuem barracas, dispostas desordenadamente”.




Neste ano foi construído um prédio próprio para a alfândega no corpo da praça, no alinhamento da atual Rua Sete de Setembro. Os comerciantes foram transferidos para a Praça do Paraíso, hoje a Praça XV, mas, por resistência dos comerciantes, a Câmara acabou permitindo, de forma transitória, a utilização do lado oeste como local de mercado, passando a se chamar Praça da Alfândega – na época, muitos logradouros públicos recebiam o nome devido às atividades nelas desempenhadas.

Na mesma época Silvestre de Souza Telles, com base em uma concessão recebida, reivindicou a posse de parte da área que fazia fundos com a Alfândega, o que comprometia os planos de expansão do logradouro por parte das autoridades. O reclamante teve sua concessão cassada, e a administração pública providenciou que o acesso ao trapiche e à Alfândega fosse desembaraçado de ambulantes e construções temporárias. Contudo, os esforços oficiais foram insuficientes para manter o local asseado e desimpedido, tornando-se um depósito de detritos.

A situação melhorou entre 1856 e 1858 quando foi erguido um muro de pedra com uma escadaria junto ao rio, no alinhamento da atual Rua Sete de Setembro. Em 1866 a Cia Hidráulica Porto-alegrense instala um chafariz de ferro bronzeado e a arborização é iniciada, com o plantio de nove árvores por empreitada, mas logo a praça foi entregue aos moradores do entorno para que a adornassem e ajardinassem, seguindo a orientação da engenharia pública. Alguns anos após foram instalados bancos e um quiosque.


Em 14 de março de 1883 seu nome foi alterado pela Câmara Municipal para Praça Senador Florêncio, em homenagem ao político e senador do Império, falecido em 1881, Florêncio Carlos de Abreu e Silva.

O contínuo desenvolvimento comercial e as determinações da República se melhorarem os portos e de se sanearem as cidades, leva Porto Alegre a enfrentar de forma decisiva essa grande tarefa. A construção do porto passa a ser uma das grandes metas da “Política dos Transportes” do governo Borges de Medeiros, que previa a interligação de todo o estado por uma malha de vias de rodagem, férreas e fluviais. A construção de um porto modelo era uma prioridade dentro deste sistema. Os técnicos e políticos da época viam a localização de Porto Alegre a situação ideal para a construção de um entreposto comercial entre o interior do estado, dotado de importante rede fluvial, e o mar, através da Lagoa dos Patos.

A Praça da Alfândega, sendo um forte ponto de referência e representando todo um passado histórico, era o local natural para localização do ponto de desembarque de passageiros. Desta maneira, a construção do cais começa ali, no eixo da qual é colocado o portão central. Seguindo o paradigma urbanístico da época, aquele do urbanismo francês, o eixo que chegava a esse portão deveria ser reforçado para valorizar a entrada e embelezar a cidade através de uma larga avenida, com duas pistas, canteiro central ornado de palmeiras e margeados por imponentes prédios – a Avenida Sepúlveda – uma intervenção intrigante, limitada à extensão de três quadras.




Em 1912 a demolição do prédio da Alfândega e o aterro de 100 metros de largura sobre o rio foram decisivos para a conformação atual da praça, levando à reformulação geral e o ajardinamento deste novo espaço urbano. O projeto paisagístico, de inspiração francesa, é geométrico e seu eixo central possui uma forte marcação, delineada pela pavimentação e pela vegetação – palmeiras-da-Califórnia. Este eixo se desenvolve até o cais, cortando a pequena Praça Barão do Rio Branco, finalizando e focando o Portão do Cais, enquadrado pelos prédios do MARGS (antiga Delegacia Fiscal) e do Memorial do RS (antigo Correios e Telégrafos), através da Avenida Sepúlveda.


A vegetação utilizada para marcação do entorno da praça foi o jacarandá e, nas laterais da Avenida Sepúlveda o ligustro, espécies muito utilizadas nesta época na arborização urbana. O novo projeto possivelmente preservou boa parte da vegetação existente, o que justificaria a presença de árvores de grande porte como pinheiros, ciprestes e eucalipto. Em 1920, foram retiradas várias paineiras que prejudicavam as plantações vizinhas e o ajardinamento do local. Em 1923, foi instalada a estátua eqüestre do General Osório, em bronze, de autoria do escultor Leão Veloso, no centro do logradouro, com espelho d’água, chafariz e bancos. Em 1935, a estátua “A Samaritana”, colocada na Praça Montevidéo em 1925, é transferida para a Praça da Alfândega cedendo lugar à Fonte de Talavera.




Athos Damasceno Ferreira escreveu, em 1940 a obra Imagens Sentimentais da cidade, contando histórias da cidade no século passado. Entre estas, as histórias da velha Praça da Quitanda:

“(...) Era a praça dos kioskes, espécie de baú de turco, onde se compravam cigarros, charutos, alfinetes, água de cheiro, pregadores, colares de vidro, brochurinhas portuguesas – um mundo de quinquilharias". Praça dos jornais, pois que em duas das faces fronteiras a ela se instalaram diversos jornais da cidade – “O Sentinela do Sul”; “O Anunciante”; “O Imparcial”; “O Exemplo”; “Correio do Povo”; “A Federação” – ali a curiosidade incurável de porto-alegrense ia devorar o artigo de fundo, ia pescar o boato político, ia ver o se o seu nome saíra publicado nas notas sociais.” [pp.27]

“(...) Para ali se dirigiam, quase sem sentir e muitas vezes sem razão, todas as pernas infatigáveis do burgo. Gente que saía apressado das lojas da Rua da Praia, gente que descia a Rua da Ladeira, gente que vinha do porto, gente que parecia cair, por milagre, dos próprios galhos das arvores: - homens, mulheres, crianças, cavalheiros do fraque e chapéu alto, senhoras de saia balão, colegiais, moleques alarifes, pretos mulatos, a cidade inteira.” [pp.27-28]


Nos anos seguintes, a Praça da Alfândega já se constituía num dos logradouros mais interessantes e bem localizados da cidade, sendo procurada por toda a população. A presença dos bondes, primeiro puxados por burros, seguidos pelos elétricos, era responsável pela grande circulação de transeuntes. A construção de hotéis, clubes, cinemas, restaurantes, cafés, traziam para a praça uma animação permanente não só durante o dia, mas também à noite – O Grande Hotel, o Clube do Comércio, o Cinema Guarany, o Cinema Central...

Desde 1955, sempre na segunda quinzena do mês de outubro, acontece na praça a tradicional Feira do Livro, um dos maiores eventos culturais do Rio Grande do Sul, que iniciou com 14 barracas de venda de livros, projeto idealizado pelo diretor do Diário de Notícias, Say Marques, e executado pelo representante da editora José Olympio, Maurício Rosemblatt. Atualmente é organizada pela Câmara Rio-grandense do Livro (CRL), atraindo milhares de visitantes que buscam os novos lançamentos nacionais e internacionais ou as muitas ofertas de livros usados a baixíssimos preços, assistem aos shows de música, dança e teatro que acontecem diariamente.

O início de sua decadência pode ser datado com a derrubada do antigo prédio da Caixa Econômica Federal e a construção do novo, na década de 70. Este fato coincide com a retirada dos bondes, dos veículos, dos cinemas, dos cafés tradicionais, dos moradores e com a substituição dos serviços, do comércio sofisticado pelo popular e o surgimento do comércio ambulante no seu entorno. As meretrizes, malandros e marginais que frequentavam a praça acabam por tomar conta dela, criando um clima de insegurança na população em geral.




Em 1979, uma lei aprovada pela Câmara Municipal unificou as Praças Senador Florêncio e Praça Barão do Rio Branco, incorporado o leito da Rua Sete de Setembro, transformando esta área em um grande calçadão (intervenção característica da década de 70), e denominou de Praça da Alfândega a área compreendida entre a Rua dos Andradas, Capitão Montanha, Siqueira Campos e Cassiano do Nascimento. Uma fração a oeste é cedida para a construção do edifício da Caixa Econômica Federal.

No final da década de 80, a recuperação do Prédio da Delegacia Fiscal, transformado em Museu de Artes do Rio Grande do Sul, a implantação do primeiro McDonald’s da cidade e a transformação do Hotel Magestic na Casa de Cultura Mário Quintana começaram a trazer para o centro da cidade uma certa vitalidade que este havia perdido.

Em 200, foram realizadas obras de prospecção arqueológica, a fim de descobrir o local exato do antigo ancoradouro de pedra e outros remanescentes da conformação antiga da Praça.

Refêrencias:

FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Universidade (UFRGS)/Prefeitura Municipal, 1988

RODRIGUES, Tagore; DE SOUZA, Célia Ferraz; RIZZOTTO, Renata - Instrução para o Tombamento dos Conjuntos Urbanos da Praça da Matriz e da Praça da Alfândega. Julho 2000. Prefeitura de Porto Alegre

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