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2010 – Recordações pessoais de POA, no aniversário da cidade.

E DEUS CRIOU PORTO ALEGRE

Paulo Timm – 2010 (Da Série Prévidi)

: “Aqui eu não ando, eu flutuo...”

Heitor Silveira, Engenheiro, PLANISUL.


E assim foi: Longos anos, décadas, longe do sul e então o retorno. Cheguei piá em Porto Alegre, em pleno inverno de 1955. Mas não reclamei do frio. Santa Maria era muito pior. E me aquerenciei no

perímetro do bonde “Duque”, morando logo abaixo do Alto da Bronze. Ali me ambientei, numa rara ecologia humana que ia do cais do Porto à Pantaleão, numa orla carregada de álcool, prostituição e até uma Casa de Detenção, subindo gradativamente a Vasco Alves, para se recuperar social e moralmente, ao longo de toda a Duque de Caxias, até o Viaduto Borges de Medeiros. Um período maravilhoso, em meio aos “Anos Dourados”, em cujas férias eu me atirava na velha “Maria Fumaça” para reviver minha antiga morada. E assim passaram anos e anos, nos quais me reencontrava com os primos e primas na casa grande de minha amada avó, Romilda, transformada em Clube da meninada. Quando me dei conta, tinha passado pelo Colégio das Dores, pelo “Julinho”, pela antiga Escola de Cadetes da Redenção. Era um portoalegrense. E já era homem. Ou, pelo menos, pensava que era..


Era 1966. Estava na Faculdade de Filosofia, em pé, junto ao umbral que separava o salão de entrada do Bar interno, ao lado do Flavio Koutzii, do Clovis Paim Grivot, do André Foster, da Mercedes (então) Loguercio iniciando-me nas teias da subversão, para horror de uma família conservadora estrelada de militares de alta patente. Durou pouco: o tempo de me formar e , cagado de medo pelos rumos que a velha dissidência estudantil comunista ia tomando, rumar para o Chile. Paulo Renato Souza, colega de Faculdade, na Economia, me esperava e me daria, generosamente, o seu emprego como “ayudante” do José Serra (esse mesmo!!!) na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais – FLACSO. Começava o ano mais terrível da ditadura: 1970.


Muitos anos depois vim a saber-me, pela crônica de Sérgius Gonzaga, hoje Secretário de Cultura*, sobre a década de 60 ,em Porto Alegre, que eu fora um guru do marxismo-leninismo na cidade, já àquela época contaminado pelo vírus do “ Discreto Charme da Burguesia”, na inclinação por carros esporte, roupas finas, vinho e charutos da melhor qualidade e queda irresistível por mulheres bonitas e amantes castelhanas...Mas esquerda, como toda a geração daquela época.


*Atual coordenador do Livro e de Humanidades da SMC/PMPA - 2022


Esta Porto Alegre, por quatro décadas, ficou nos meus sonhos e devaneios. Do Chile fui para Brasília e lá fiquei 35 anos. Certa feita, um amigo, Heitor Silveira, já falecido, de quem me aproximara na Planisul de todas as cores e malucos, também em Brasilia, retornara, em caráter definitivo, e me esnobava: “Aqui eu não ando, eu flutuo...” Eu morria de inveja. Era o suficiente para eu conseguir umas férias matrimoniais, com ou sem permissão do empregador, e mergulhar dias sem fim naquela que sempre foi a minha cidade. E sofregamente tomava alguma aventuras amorosas como quem se agarra ,não ao passado,mas à própria cidade. Sentia-me, então , embriagado de estranha felicidade naqueles dias em Porto Alegre.


Agora estou aqui ao lado, em Torres. Já nada me impede de estar “em casa”. Digo ao filho e família que temo o excesso de frio e chuva. Outras vezes, digo que já não suporto a cidade grande, cujas vias nem reconheço e novos bairros nem sei chegar. Vezes há , ainda, que a cidade não é segura. Tudo mentira. Guardo as vindas a Porto Alegre como uma primícia, de sabor sensual e convidativo. Como quem freqüenta furtivamente a proibição. Quem inventou a saudade, me disse uma vez uma amiga, não conhecia a distância. Nunca saberei , ao certo, se a máxima era ou não dela. Mas valeu...Saboreio a pequena distância que me separa de Porto Alegre com uma pitada de saudade.


Aí escolho o Hotel. Tem que ser no Centro, no meu velho perímetro do “Duque”, onde me sinto em casa. E, quase sempre, procuro as pegadas do Mário Quintana, em busca de inspiração poética. Já não há o Majestic, onde ele morava, que me foi tão misterioso na juventude, pelos arcos, arcadas, sacadas que contemplava , lá de baixo. Hoje pego o elevador no Centro Cultural Mario Quintana , vou àquelas sacadonas e me sinto senhor de um tempo que se foi. Não importa. Disseram-me que o Falcão levou meu ídolo para o Hotel Royal, na descida do Sevigné, então lá eu fico.


Chego em Porto Alegre , quase sempre, à noite. E aí redescubro o prazer de ouvir Lupicínio pelo seu filho, a gratidão de me sentir perto do Uruguai, através de uma parrillada, de andar pela boemia da Cidade Baixa como quem anda no Quartier Latin. Já não vejo os velhos amigos. Muito raro. Acho que nos evitamos sem querer, querendo. Mas encontro novos e nos regozijamos com os mesmos profundos papos que nos anos 60 povoavam nossas tertúlias quando saíamos do Festival de Cinema Tcheco, na Praça da Alfândega, para discutir, sob inspiração do último artigo do Pilla Vares, a diferença entre consciência e ódio de classe, como critério de discernimento da ação revolucionária.


Pela manhã uma longa caminhada ao longo dos imaginários trilhos do “Duque”. Atavismo. Reapropriação do tempo e do espaço. Casas, casarões, a escadaria da Fernando Machado relembrando a ampla vista que se tinha do Guaíba, o cumprimento aos lugares vividos numa espécie de oração matinal , um velho, como eu, irreconhecível, por trás de uma janela. Naquele tempo banhávamos no gasômetro. E entrávamos e saíamos do Porto como queríamos. Eu sempre com um SPICA debaixo do braço para vender no Colégio e fazer uma graninha. Na primeira vez que subi no convés de um navio fiquei impressionado com a altura até a superfície da água. Desci correndo.


São oito e meia da manhã e já percorri minha juventude, com uma passagem pela Redenção para reviver os ideais soterrados pela barbárie stalinista. Estou na frente do Mercado com os sentimentos à flor da pele. Ali entrei , pela primeira vez, muito menino. Para provar o morango com chantili na Banca 40, que desconhecia. E mordiscar uns camarões ultra-salgados expostos na banca ao lado. Fascinado. Entro solenemente, como se fora numa feira medieval.


Primeiro uma parada na Banca de Revistas e Livros usados. Salta aos olhos um exemplar de Cícero, sobre Obrigações Civis. Cícero a essa hora? Nada melhor. Procurar um lugar para sentir o momento mágico e folhear o opúsculo alentador. Aí o Café do Mercado, um balcão simples, com mesas altas e bancos suspensos defronte. Mas, lá dentro, o segredo do café cremoso apojado de tetas sibilantes numa variedade rara no resto da cidade. –Tem café Jacu, pergunto hesitante? - Sim , senhor! Um expresso? - Pois sim! E me sento num dos bancos para folhear o capítulo sobre o “Decoro”, ao sabor do melhor – e mais caro café – do mercado brasileiro. Cagado por uma ave, o jacu, e retirado depois de secas as fezes...(!) Degusto o café sem pressa. Nem olhares curiosos. No passal das gentes a única preocupação é o dia que vem pela frente. Fico eu, apenas, com o prazer. O prazer de estar no Mercado de Porto Alegre. E deixar escoar o tempo... Certo de que, na saída, levarei para Torres um belo pedaço de charque de ovelha para um carreteiro.


Deixo o Mercado, retorno à Rua da Praia e rumo para a Jerônimo

Coelho. Fazer barba e cabelo num daqueles machadianos salões que prometem funcionar dia e noite! Escutar o falar acalorado de adversários ferrenhos sobre as virtudes dos novos jogadores do Grêmio e do Internacional. “ Sou do Força e Luz”, digo. Não entendem bem. “Depois torci pelo Cruzeiro, pelo qual joguei no time de basquete”. Eles me olham desconfiados, de cima pra baixo, e eu, do meu 1.60m completo: “ No infantil...”


Aí resolvo subir a ladeira, ver uns sebos, e me reconheço uma vez mais no céu. Acho dois livros que já havia perdido numa das inúmeras mudanças e lá me vou para o reencontro com “A Razão Cativa “ e “Razões do Iluminismo”, de um dos maiores filósofos brasileiros, marcado para morrer por ter sido Ministro da Cultura do Collor: Sergio Paulo Rouanet. E nem se dão conta que Collor , foi , depois de Jango, o único Presidente a ter Ministros irretorquíveis. Várias livrarias, o mesmo encanto. Então, carregado, me sento num pequeno restaurante da Riachuelo, à hora do almoço, para um copo de vinho. E me convenço de que “Deus criou Porto Alegre”, como diz o Prévidi.


E tenho um dia inteiro e um domingo, ainda, pela frente. Mas não vou contar mais nada hoje. Fica para outro dia...





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