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Sem um novo Puerto Madero, por favor


Montes de lojas de disco, montes de livraria – e montes de centros culturais. Montes e montes de centros culturais. Ao ver os muitos armazéns vazios do porto (o movimento pesado de navios foi levado mais para o Norte, para um ponto mais afastado do centrinho histórico), Mary imaginou um plano de revitalização do porto, à la o que fizeram em Barcelona e Buenos Aires e há décadas dizem que vão fazer no Rio, mas briguei ferozmente contra a idéia, com o argumento de que é melhor deixar tudo do jeito que está: se inventarem revitalização do porto, é capaz de esvaziar a cidade em si e seus muitos centros culturais. Eles têm boa freqüência hoje, estão sempre com gente – melhor deixar como está. Mary acabou concordando, e fica combinado assim: não haverá uma novo Puerto Madero em Porto Alegre.

Há um centro cultural no Gasômetro, com café e cinema, e, entre outros, cursos de informática. Quando estivemos lá, tinha também uma exposição de fotos de Porto Alegre em várias épocas, bancada pelo jornal Correio do Povo, que, aparentemente, o poderio do grupo RBS ainda não conseguiu sufocar. A rigor, nem precisava de exposições, porque o prédio do Gasômetro em si, entre o início do porto, de um lado, e, do outro, o início dos parques que prosseguirão acompanhando o Guaíba rumo ao Sul, já é uma belíssima atração. A vista que se tem do Guaíba e das ilhas do delta na grande varanda do terceiro andar do prédio onde funcionou a antiga usina termoelétrica da cidade é de babar.

No centrinho do centrinho, junto da Praça da Alfândega e suas belas árvores, estão três prédios imponentes, maravilhosos, construídos na década de 20, ou por aí, onde hoje funcionam o Margs, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural*.

*Mudou para Farol Santander

O prédio onde está o Margs, o museu de arte do Estado, foi construído para ser a alfândega, se não me engano. Tem um bistrô francês dando para fora, para a praça, bem simpático, e, lá dentro, um café, e um bom acervo, com Di, Portinari, um monte de gaúchos, é claro, alguns bem bons, e diversos europeus.

O prédio que hoje é o Santander Cultural foi construído para ser um banco, não sei exatamente qual – talvez o antigo Banco da Província do Rio Grande do Sul. Hoje tem salas de cinema, mas estava sem exposição nos salões principais, e por isso as recepcionistas não nos deixaram entrar neles. Foi o único lugar em que vimos pessoas antipáticas – as recepcionistas em vez de recepcionar afastam os eventuais visitantes. Como se não houvesse outros centros culturais para ver naquela cidade. A principal atração do belo predião, assim, acaba sendo um café construído dentro do lugar que era o antigo cofre central do banco. Comemos lá uma bobagem qualquer, servida por um garçom veado, afetado, metido a besta.

O Memorial do Rio Grande Sul funciona no prédio que foi construído para ser o Correio central de Porto Alegre, nos moldes do prédio do Correio no Anhangabaú com São João. A construção é uma beleza, como os demais vizinhos, e havia lá uma exposição de grandes painéis contando os principais fatos da história gaúcha. A exposição é muito boa, os painéis são bonitos e bem montados – o duro é tentar entender a história gaúcha, com tanta revolução, tantos farroupilhas, tantos positivistas, maragatos, chimangos, caudilhos, invasão disso, invasão daquilo. Lutam muito, aqueles povos do Sul.


Ali perto tem o Mercado Público Central – um belo centro cultural-gastronômico, maravilha de mercadão, assim uma mistura do Mercado paulista da Rua da Cantareira com o Mercado Modelo da Cidade Baixa em Salvador. Entre as mil bancas de comida de todos os tipos e as dezenas de bares e restaurantes, alguns antiqüíssimos, com cheiro de mate e peixe fresco, segundo tinha avisado a Vivi, há um grande sebo de revistas e livros e a sensacional Banca 40, que também nos tinha sido indicada por nossa amiga gaúcha. A Banca 40 serve ali, há 82 anos, sorvetes de todos os tipos; Mary e eu dividimos uma Bomba Royal – acho que é esse o nome de uma gigantesca salada de fruta com sorvete de chocolate, morango e nata batida. Quando chegamos, havia uma única mesa desocupada, e para pagar, na saída, tem fila.

Entre o prédio do Mercado e o porto há a estação inicial do antigo trem de subúrbio, que vai rumo ao Norte, até… ih, sei lá até onde, algo no Vale dos Sinos – seria Novo Hamburgo? Hoje é chamado de metrô, é coisa ainda do governo federal, uma estatal chamada Trensurb. Andamos nele até a quarta estação, para experimentar; estações bem limpas, bem cuidadas. O fascinante, e louco, é que, nessa estação central, a primeira delas, não há uma única placa, um único aviso de que aquelas escadas para debaixo da terra levarão a um trem, ou a um metrô. Ou você sabe que ali é a Estação da Sé deles, ou você não sabe, e pronto. Quem mandou não ser porto-alegrense?

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