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Tropeça-se em cultura

2009 – Um turista acidental registra suas impressões


Este texto já está grande demais, está ficando do tamanho do que fiz sobre Paris (e daí? tem que ficar mesmo, tchê, diriam os gaúchos), e, como dizia o Celso Ming para o Mitre, ao chegar à linha de número 400 sem ter ainda alcançado o que descreveu como “o fulcro da questão”, ainda não falei nada de cultura – e é impressionante a coisa da cultura em Porto Alegre.

Os belo-horizontinos, os curitibanos que me perdoem, mas em Porto Alegre se tropeça em cultura. É impressionante. Como a Mary bem notou: as pessoas comuns na rua falam de cultura, de livros, de filmes, de música.

Na Praça da Alfândega – belíssima –, vimos um dia uma apresentação de um conjunto de música andina, à espera de algum trocado. Umas dez pessoas, em trajes típicos, cantando e tocando com a ajuda de um playback que tocava outros instrumentos. Tinha visto um assim na Union Square, em San Francisco, e comprado um disco deles, e por isso fui lá ver se os andinos porto-alegrenses tinham disco; claro que tinham, 20 reais. Ouvi mais tarde o disco em casa. É uma família de equatorianos. Bah, um som bom – uma coisa andina mas com um toque de world, com as flautinhas e violões típicos mas também com sintetizador, um toque meio techno, meio de índio norte-americano forte com brinco de ouro na orelha.



No dia seguinte, em outro ponto da Praça da Alfândega, tinha um rapaz solitário, guitarra elétrica e gaita pendurada no pescoço à la Woody Guthrie (os mais jovens diriam à la Bob Dylan, ou à la Neil Young; os mais jovens são assim, acham que o mundo começou no dia em que eles nasceram). Cantava, e bem cantado e bem tocado, “Wild Horses”, dos Stones. Paramos pra ver, mas paramos atrás dele, para não distraí-lo, e também para tentar observar as reações. Quase nenhuma reação: tinha uma garotinha meio punk parada diante dele, pele muito clara, cabelo vermelho fogo vivo, cara de mesmerizada, e só; o resto das pessoas passava direto, sem parar nem um segundo para ouvir. O cara aí atacou de “Like a Rolling Stone” – cantou a letra inteirinha, certinha. Sugeri à Mary que deixasse uma moeda para ele, ela andou até lá, botou a moeda. Ao terminar “Like a Rolling Stone” ele se virou para trás, olhou para nós e perguntou: Algum pedido? Respondi que não, que ele ficasse na dele, e o bicho foi de “The Boxer”.

Um dia, saindo do Centro Nova Olaria, na Cidade Baixa, onde ficam as salas do Cine Guion e uma beleza de loja de discos e livros, e há diversos cafés e bares que fazem lembrar demais Buenos Aires, entramos num táxi e no rádio Dylan estava cantando “Jokerman”. Não ouço rádio, mas imagino que não haja uma emissora de São Paulo que toque “Jokerman”, e então me peguei dizendo “uau, Bob Dylan” – e o motorista do táxi, um garoto, disse, tranquilamente: “É, essa música o Caetano gravou”. Juro de pé junto que nenhum motorista de táxi do meu bairro – e eu conheço dezenas deles – sabe que Caetano gravou “Jokerman”.

Aproveito o gancho para matar o assunto táxi: seguramente não há cidade alguma no Brasil em que o táxi é mais barato e farto. Um taxista me falou em 3 mil táxis, mas parecem 30 mil – estão em todos os lugares, a qualquer hora. As corridas em geral não passam de 12 reais; fizemos várias de menos de 7. Do aeroporto até o Centro foram 25 reais – a metade do que em São Paulo se gasta de Perdizes até Congonhas, para não falar de Cumbica. E os motoristas – não vimos exceção – são falantes, comunicativos, o que é normal, mas bem humorados e não reclamam da vida e de que a praça está ruim, o que é digno de entrar no Livro Guinness dos Recordes.


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