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1807 – outubro, 24 – Nasce o Parque da Redenção



Renomeado em 1835 como Parque Farroupilha ,quando é inaugurado como parque urbano, significativo não apenas nas suas sucessivas denominações, mas como um dos lugares mais aprazíveis ao lazer do porto-alegrense ao longo de décadas. Quando era universitário, no Curso de Ciências Sociais da UFRGS, anos 1960, costumava fazer longos passeios com colegas por entre seus encantos e recantos. Hoje faz parte do Patrimônio Histórico da Cidade e os porto-alegrenses seguem chamando-o carinhosamente de “Redenção”. Este nome, aliás, referido ao momento em que a escravidão foi abolida na cidade, tem, talvez, um sentido mais universal e fraterno do que àquele referido aos farrapos. Vez por outra, como no início dos anos 2000 há tentativas de cercar o Parque por razões de segurança. A população, porém, sempre rejeitou deixar a Redenção atrás das grades. O artista Jorge Herrman, porto-alegrense, graduado em Desenho pelo Instituto de Artes da UFRGS, imortalizou a Redenção com um conjunto de desenhos que expôs em 2009 a que denominou “Confluências – Uma Crônica Visual da Redenção” no qual apresenta um mapeamento com diferentes técnicos, entre elas o grafite e aquarela, dos usos e características do Parque.- Publicado por Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul (extraído pelo JusBrasil) - Colaboração de Adriano dos Santos


ATUALIZANDO...

No momento em grande debate se realiza na cidade (2022) porque a Administração local lançou edital de concessão do parque como um todo, sendo que nos últimos anos a Redenção perdeu seu Mini-Zôo, seu Orquidário, como vários espaços foram concedidos à iniciativa privada para colocação de comércio, em especial os chamados “comes e bebes”.


Um passeio pelo Parque


Parque Farroupilha (Redenção)


Doado à cidade em 24 de outubro de 1807 pelo governador Paulo José da Silva Gama, o local foi inicialmente chamado de Potreiro da Várzea ou Campos da Várzea do Portão, passando mais tarde a denominar-se Campos do Bom Fim, devido à proximidade da Igreja do Nosso Senhor do Bom Fim (1867) e das festas que ali se realizavam. Em 9 de setembro de 1884, a Câmara propôs que o parque passasse a ser denominado de Campos de Redenção, em homenagem à libertação dos escravos do terceiro distrito da Capital. O primeiro ajardinamento ocorreu em 1901, quando já existiam na área do parque a Escola Militar (1872) e a Escola de Engenharia (1896). Com a Exposição Comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha, em 1935, o parque tornou-se Parque Farroupilha, pois o evento transitório efetivou a ocupação total deste espaço. No dia 19 de setembro de 1935, Campos da Redenção recebeu a denominação de Parque Farroupilha, por meio do Decreto Municipal 307/3. Os recantos Jardim Alpino, Jardim Europeu e Jardim Oriental foram implantados em 1941. Em 1978 foi criado o Brique da Redenção e em 1997 efetuado o tombamento do parque como patrimônio histórico, cultural, natural e paisagístico de Porto Alegre. No local, existem várias opções de lazer, como o parque de diversões, os passeios de trenzinho e pedalinhos, o Mercado do Bom Fim (onde há lojas de conveniências, restaurantes e lancherias), o Café do Lago e a Feira Ecológica (aos sábados pela manhã). Além de diversos recantos, como Orquidário*, Recanto Alpino, Recanto Oriental, Recanto Europeu, Solar, Fonte Luminosa, Espelho d’água e Auditório Araújo Viana**, o parque conta ainda com 38 monumentos, com destaque para o Monumento ao Expedicionário.

*Foi retirado

**atualmente, sob concessão para a iniciativa privada Há cerca de 10.000 árvores, de espécies como chal-chal, pitangueira, paineira, tipuana, cocão, palmeira da califórnia, grinalda de noiva, jacarandá, ipê-roxo e cipreste.

Endereço: Avenida João Pessoa, s/nº Telefone: (51) 3289-8304 e 3289-8305 Área: 37,51 hectares Inaugurado em: 19 de setembro de 1935

CRÔNICAS

O Campo de Redenção


Crônica de Ary Veiga Sanhudo*, do livro "Porto Alegre Crônicas de Minha Cidade" - escrita em 1961 sobre Porto Alegre e a Redenção.

As forças brasileiras já haviam rechaçado as tropas paraguaias do seu território, tinham cruzado a província Argentina de Corrientes e estavam diante do Forte Itapiru, na confluência das águas do Rio Paraguai com o Paraná, preparando a histórica travessia do Passo da Pátria. Do outro lado do rio eram terras do Paraguai. Na tarde de 5 de abril e durante toda a noite, os nossos contingentes passaram fortificando a ilha fronteira ao forte paraguaio, onde uma guarnição de engenharia e infantaria assentou uma bateria Lahitte 12 e 4 morteiros. Às nove horas da manhã seguinte hasteou-se a bandeira brasileira na ilha ocupada. Essa ilha era chamada pelos guaranis, que a consideravam como uma extensão da sua costa, por Itapiru. No mesmo momento rompeu o fogo inimigo. Daí por diante, e durante cinco dias ininterruptos, os paraguaios não cessaram um só instante, preparando o tremendo assalto a ilha, que os nacionais, em vista da sua tomada, chamavam-na de Ilha da Redenção. Na madrugada de dez, os paraguaios que haviam resolvido tomar esse pedaço de terra, a qualquer preço, arrojaram 1 400 homens escolhidos sobre o punhado de brasileiros aí concentrados e, então se travou um dos mais encarniçados combates, no qual poderia o inimigo obter muita vantagem pois estava protegido pela escuridão de que se aproveitara para surpresa, tendo encontrado, entretanto, o valente coronel Villagran Cabrita, que, com os seus bravos companheiros, batem, corpo a corpo, até o raiar da madrugada. Só alto dia foi que conseguiram aniquilar completamente o inimigo, que em hordas sucessivas, abatia-se sobre a ilha. Poucos foram os paraguaios que regressaram ao forte fronteiro, porque a metralha varria o rio, enquanto os cadáveres inimigos juncavam horrivelmente as águas cada vez mais vermelhas do Paraná. A ilha fora garantida e estava assegurada a passagem do rio. Cabrita, o comandante da guarnição, logo depois, começou a redigir a comunicação do combate, quando uma granada prostou-o morto no próprio campo onde momentos antes havia alcançado uma das mais esplendidas vitórias da guerra do Paraguai. Dias depois, os exércitos aliados começaram a pisar o território inimigo, protegidos pelas bocas de fogo da Ilha da Redenção. O Brasil inteiro exultou com a notícia dessa vitória. Porto Alegre redobrou de satisfação. E como conseqüência muito natural, pensaram logo em perpetuar a memória da batalha que nos propiciou o ingresso em terras paraguaias. Daí então o fato de terem começado a chamar de Campo da Redenção, os abandonados terrenos da Várzea. E Campo da Redenção foi ficando, invocação que ainda em nossos dias não está esquecida. É uma tradição bem fundada, hão de convir!

Alguns cronistas referem, entretanto, que Redenção lembra a recuperação da cidade de Uruguaiana, em novembro de 1865, ocupada por forças de Lopez, e outros, ainda, ligam esse nome ao episodio de 13 de maio de 1888, quando a Redenção libertou os escravos. Mas, a origem verdadeira prende-se aos acontecimentos da batalha na ilha que os próprios brasileiros batizaram de Redenção. Até essa época, era Várzea, nome que ainda hoje é invocado. Falemos, todavia, dos seus primeiros tempos. Quando o governador José Marcelino, em meados de 1771, começou a pensar em transferir a capital, de Viamão, para esta povoação, uma das primeiras coisas que fez foi ordenar ao capitão Alexandre Montanha que abrisse duas estradas para ligar aquela cidade a este Porto dos Casais. Surgiu daí o caminho de Viamão que viria a ser mais tarde o Caminho do Meio e a estrada do Mato Grosso ou do Dilúvio, ambas, entretanto, reza a tradição, vinham culminar no logradouro público já conhecido como os Campos da Várzea! Aquela foi chamada ainda por Caminho da Capela e esta, depois, tomou o nome de Estrada da Azenha. Nesses tempos, a Várzea não passava dum vasto banhado com raros tufos de matos, algumas capoeiras e completamente deserta. Era zona fora dos muros da cidade e que escassamente alguém se aventurava a percorrer, mesmo em plena luz do dia. Tinha uma boa fauna de aranhas e cobras e é quase certo que alguma onça por aí andasse mansamente na sua costumeira ronda do pão de cada dia. No ano de 1807, o governador Paulo José da Silva Gama, atendendo a uma solicitação dos vereadores, concede, em nome de Sua Alteza Real, a várzea do Portão, ao conselho da capital, para "os utilíssimos e necessários fins de conservação dos gados que se matam nos açougues desta vila, e descanso dos viajantes que vêm de fora em suas carretas e carros com gados e bestas de sua condução".

É assim que a Várzea do Portão passou para o domínio da cidade e com a especialíssima condição de servir de pouso aos viajantes e mangueira aos animais destinados ao abastecimento da população. O matadouro ficou localizado aqui no sul, nas proximidades do nosso moderno cinema Avenida e o pouso ficava lá, ao pé da rampa do Portão, onde outrora intermináveis carretas aí estacionavam por dias e meses até. E interessante, como paradouro, a Redenção prestou-se até as vésperas da sua urbanização, ainda no fim do primeiro quartel deste século. Só que as viaturas e animais, ultimamente, paravam mais lá para os lados do Caminho do Meio, pois, sempre foi mais deserto aquele ângulo da Várzea. Vinte anos depois de ter recebido aquela concessão, a Câmara que precisava construir uma cadeia e andava em apuros para a manutenção dos expostos, solicitou permissão para repartir e aforar os terrenos da Várzea. Foi o próprio Imperador que não o permitiu, por julgar "conveniente conservá-la livre e desembaraçada por ser o único lugar que oferecia as necessárias proporções para os exercícios militares". Desse modo, para pousos ou exerci'cios militares, a Várzea foi ficando resguardada da fúria das construções particulares. Hoje, mais do que nunca, não se pode negar que foi uma sorte para a cidade! O vereador Pinto de Souza pode ter sido um demagogo, mas não se diga que ele não era bem intencionado. Eis que, em junho de 1833, vai à tribuna e diz: "sendo a cidade já bastante grande, e cada vez mais populosa, faltam-lhe, contudo, todos os meios de entreter os seus habitantes nas horas de recreio". E propõe então a construção, na Várzea, dum Jardim Botânico e Passeio Público. O projeto era bom e previa muros, portões, janelas, grades e até dizia a certa altura: "enquanto não puder ser desta maneira cercado de espinhos ou limoeiros".

Foi discutido... e por isso mesmo a Várzea continuou no costumeiro abandono dos matos e charcos... Afinal, custava tanto dinheiro!... Veio a Guerra dos Farrapos e com ela as incontáveis correrias nesses campos que Sua Majestade tinha reservado para os exercícios militares!... Mas, sem duvida, entre todas, a mais memorável é a batalha dos Tamancos, aí registrada no inverno de 1840. Em fins de julho desse ano, quando o gen. Andréa chegou aqui para governar a Província, a cidade estava completamente sitiada pelas forcas republicanas. O herói da "Guerra dos Vinagres" para poupar seus soldados, resolveu alistar todo o indivíduo que aparecia em palácio, sem perguntar mesmo se tais recrutas sabiam ou não pegar em armas. Eis então, que forma uma força de pedreiros, carpinteiros, estivadores, chacareiros, carreteiros, quitandeiros, mascates e que sei mais... Dá-lhes espingardas e os manda guarnecer a trincheira onde hoje está a Santa Casa. Lá pelas tantas, numa noite sereníssima, os improvisados guerreiros ouviram um barulho aí pelas imediações do Largo Bento Gonçalves, e não tiveram dúvida... resolveram dar uma lição aos rebeldes! Santa Mãe! Quando os pobres homens do governador viram meia dúzia de ginetes dos farroupilhas investir contra eles, foi um "salve-se quem puder!" Diz o meu amigo Spalding que a correria foi tão grande, que os desatinados fugitivos, esbaforidos e apavorados, investiram trincheira adentro, levando por diante ainda os companheiros que ali tinham ficado de guarda. Como troféus da luta, colheram os republicanos, sapatos, chinelos e tamancos, objetos que juncavam a várzea e foram deixados pelo caminho na desabalada fuga do contingente oficial.

Dai'... o famoso Combate dos Tamancos! Cinco anos depois, quando terminou a guerra, a Várzea, que já era deserta, ficou mais deserta ainda. O abandono então foi total. Terreno batido, alagado, servindo de monturos e evitado por todos. Lá nas imediações do Portão, na rampa do casario da Misericórdia, havia algumas figueiras bem copadas, mas em flagrante contraste, nos terrenos onde hoje estão as nossas escolas superiores, o atoleiro era de tal ordem, que os animais ficavam enterrados ate a barriga! Quem é que ia se meter lá? Cá no sul, ali onde está a Escola de Cadetes, estava a "cancha" das corridas de cavalos. Diz a crônica que tudo ia bem, mas se aparecia um dos brabos, então era desordem certa, quando não, sério conflito! Desses Brabos, ficaram célebres como faquistas e provocadores o Lourenço, o Nico e o temível Propício, filho daquele e que malgrado ser perneta e andar amparado em muletas, nem o diabo podia com ele! Esse homem que andava sempre armado, de pistola e adaga, era o terror do Morro de Sant'Ana. Imaginem só, se fosse uma pessoa válida! Em 1863 começaram a estender os trilhos para a Maxambomba. A estação central era aí onde hoje estão as oficinas da Carris. Em novembro do ano seguinte o carretão puxado a burros se arrastava festivamente ao longo da nossa agora moderna avenida João Pessoa. Em 65, os Voluntários da Pátria fizeram aí os seus primeiros preparativos militares para enfrentar os paraguaios em guerra com o Império. Nos últimos dias de maio de 1867, quando colocaram a pedra fundamental da igreja do Bom Fim, aí nos terrenos da Várzea, esse vasto campo, senhor de tão saborosas histórias, já era conhecido como Redenção, e, provavelmente bem defronte ao templo, os africanos realizavam o mais famoso "batuque" ao ar livre, na cidade.

Nesse tempo, mormente aos domingos, muita gente se abalava para ir ver a bamboleante dança dos negros. Era uma verdadeira festa local! Por esse tempo o Campo da Redenção era ainda uma enorme área, ia da Praça Independência, hoje Argentina, até a Rua da Imperatriz, atualmente Venâncio Aires e de lá vinha pela avenida Bom Fim até as imediações da moderna Escola de Engenharia. Depois, em 72, começou-se a construir um grande edifício, de forma retangular. Era a Escola de Guerra. Só foi concluído em 1887, em face da interrupção que sofreu em 1878. Mais, tarde, a Câmara, não sem protesto da imprensa, dividiu e vendeu aqueles terrenos entre a José Bonifácio e a Venâncio Aires. Logo abaixo da rua do Imperador, estava a chácara da Harmonia, onde se realizou, em 1881, a Exposição Brasileira-Alemã. Essa Exposição teve invulgar êxito, mas, depois, felizmente depois, alguns elementos não muito bem intencionados tocaram fogo no pavilhão central. Mais abaixo dessa chácara, havia um restaurante com o mesmo nome, e que fez época servindo ótima cerveja naqueles grandes copos de louça com as estampas de Bismark e o Imperador da Alemanha. Ficava na esquina da velha Avenida Redenção com o Beco da Harmonia. Nesse tempo, aos domingos, para quem gostava, podia ainda ir ao "circo" de touros que ficava aí na Redenção mesmo, quase defronte da atual Rua da República. Essas touradas eram famosas, pois os bandarilheiros quase sempre aqui se apresentavam sozinhos e depois faziam desafiadores convites pela imprensa para encontrar coadjuvantes. Daí então, os mais disparatados espetáculos, em que, muitas vezes, "corajosos capistas" na hora dos passes voavam pelos ares em tombos perigosos.

A Companhia Tauromáquica fez sucesso, mas não há dúvida que muito moço bonito perdeu as estribeiras na sua arena, ao querer pegar touro a unha. Afinal, era mais um divertimento da cidade... Em 1901, a Redenção se engalanou para apresentar uma das mais notáveis Exposições que a cidade viu em todos os tempos. Essa Exposição foi uma espécie de apoteose a entrada do Século XX! Os diversos pavilhões espalhavam-se ricamente ornamentados em toda essa área ai onde hoje se encontra o bloco das escolas superiores e tinha ao seu lado a bela e freqüentadíssima pista do Velódromo, que estava situada precisamente nos terrenos da atual Faculdade de Medicina e Arquitetura. Apenas o Teatro-Parque deixou sensacionais e saudosas recordações na nossa boa gente! Terminada a Exposição a cidade volta as suas diversões domingueiras e a velha Várzea, afora alguns assaltos ajudados pela situação e condições do lugar, nada mais pode oferecer do que os exercícios militares dos ruidosos alunos da Escola de Guerra. Eis que vem a primavera de 1905. Logo nos primeiros dias, numa bela e tépida tarde de sol, a população da nossa cidade começa a afluir de maneira incomum para o lugar onde se faziam as touradas. 0 que seria? Nunca se viu tanta gente assim, por aí! O grande pavilhão onde se realizavam as corridas não podia comportar mais gente. Não obstante, imensa multidão, trajando festivos trajes, ajuntava-se alegre nas suas proximidades, como que aguardando qualquer cousa extraordinária. Ao longo da avenida e até mesmo nos terrenos batidos e alagados da Redenção, uma quantidade desusada de caleças, jardineiras, aranhas, "coupes" e até algumas carretas estavam estacionadas aguardando algo de incomum que a cidade esperava presenciar.

Daí a pouco a multidão prorrompe em gritos e vivas... Era um homem que assentado numa espécie de canoinha, abanava ao povo estupefato, enquanto um balão — O Portugal — o suspendia lentamente sobre a multidão inquieta. 0 balão foi subindo, e subindo se dirigiu para o norte da cidade. Mas, a cidade estava de nariz para o ar para vê-lo. 0 aerostato caiu nos banhados duma ilha fronteira e o piloto, um tal Magalhães, ficou enganchado numa árvore! Ah!... Porto Alegre vibrou com o seu primeiro balão! Também a cidade tinha tão pouco divertimento nesse tempo. Logo depois vem a era das construções para a Redenção. Em 1906, lançam a pedra fundamental do Observatório Astronômico. 0 dr. Ahrons inicia as edificações que aí estão e que, por mais que se queira, ao olhar, não se pode deixar de observar a marcante influência alemã na arquitetura. Foi por esse tempo que se ergueu o Direito, a Engenharia , o Parobé. Mais tarde a Medicina e esses estilos funcionais que aí se vê, é coisa de há pouco. Em 29, o Divino passou para aí, ao lado da antiga estrada do Caminho do Meio. E desde então, realizam-se as festas nesse local, sem, todavia, o brilho e a singular tradição dos bons tempos.

Agora, vamos a um detalhe arquitetônico. Você já reparou na majestade das linhas do Instituto de Educação, construído por volta de 1934, no antigo campo da Redenção? Pois, é um projeto do Corona. Arquitetado no mais belo e fino estilo grego. Colunas e capitéis jônicos, só igualados com o que há de mais artístico e suntuoso no tempo de Artêmis, na Hélade. Provavelmente, é a obra mais pura e clássica, embora moderna, que temos nesta cidade! Bem, e assim, meu leitor, chegamos aos pródromos da Exposição do grande centenário da grande "Revolução Farroupilha". Antes de falarmos do certame, porém, direi que se mudou oficialmente o nome de Campo da Redenção para Parque Farroupilha. No dia seguinte, às 9 horas, abriram-se os portões da memorável comemoração. Vinte de setembro de 1935. Cem anos da epopéia centaura. O que foi essa festa, em luzes, cores, vida e deslumbramentos, é realmente uma coisa que poucos poderão contar. Em suma, foi o maior acontecimento artístico, cultural, social, comercial, industrial, municipal, estadual, nacional e internacional que a mui leal e valorosa cidade de Porto Alegre realizou em todos os tempos! Foi quando se urbanizou, de fato, a velha Várzea. Construiu-se esse lago artificial que aí está, arborizou-se, ajardinou-se e transformou-se o antigo banhado em alamedas de passeios. Nesse ano, em comemoração ao Centenário, realizou-se a ultima cavalhada que a cidade viu. Foi aí no antigo campo de pólo.

No ano seguinte, a Câmara resolveu homenagear, aí mesmo nesse Parque, mais um acontecimento da Guerra dos Farrapos, e batizou uma avenida com uma invocação que poucos conhecem. — Que invocação é essa? - A Avenida Setembrina! — Mas onde fica? - É aquela via pública em prolongamento da Rua da República, que atravessa o Parque e vai até a avenida Oswaldo Aranha! Nesta altura, você há de dizer: "Mas quem é Setembrina?! Ora, Setembrina era o nome que Bento Gonçalves deu a cidade de Viamão, logo após os republicanos terem perdido Porto Alegre, em 1836. Terminados os festejos da Exposição de 35, o Parque Farroupilha tomou outros ares e entrou paulatinamente na verdadeira senda da sua urbanização propriamente dita. Dos pavilhões, apenas resta o do Pará, que agora é uma repartição da municipalidade, os outros foram desmanchados para dar lugar ao plano de remodelação que esse logradouro público veio de receber.

Não sei se já se deu ao prazer de passear por esse parque admirando-lhe os diversos recantos e os seus vários atrativos? Se não o fez, dou-lhe um conselho, faça-o! Posso Ihe garantir que é um dos mais belos Parques que vi.

Você poderá admirar as mais variadas espécies de aves e outros animais da fauna rio-grandense e brasileira, no Parque Paulo Gama**, lá nas proximidades dos modernos edifícios das escolas superiores. Repare naquele jardim, seu belo chafariz, entre as rosas e as águas, em forma particular, ali defronte ao pequeno lago do parque que perpetua a memória do governador que doou essas terras a nossa cidade. Observe que até os namorados, que por aí andam, ficam embevecidos! Pois, se não forem as flores, será o amor. No grande parque, do outro lado da Avenida Setembrina, independente das muitas flores e das muitas árvores, você terá ainda muitos bancos. Pare um pouco, descanse e admire as verdes veredas. Vá até o Recanto Oriental, que apesar de bastante depredado ainda oferece alguma coisa típica da terra das cerejeiras. Lá existe uma caricatura do Fuji-Yama, a montanha sagrada do Japão. Tem um Recanto Europeu, com belas colunas gregas. Há um outro - o Recanto Alpino com interessante chalé de pedras. Tudo isso é belo e raro, e que poucos, muito poucos mesmo se dão conta! E o Recanto Tropical, com aqueles vasos que mais parecem urnas funerais dos nossos aborígenas, já viu? Por ali houve outrora um notável Orquidário. Será que ainda a cultivam? Lá, ao lado da fonte luminosa, nas proximidades do magnífico Monumento ao Expedicionário, você poderá' ver um dos nossos famosos chafarizes da cidade. Verdadeira relíquia. Pois, ele esteve na Praça Quinze, depois, foi para a Parobé e, por enquanto, está ali naquele canto do Parque Farroupilha. Até quando, bem, só Deus sabe! Eis então a Várzea, outrora Campo da Redenção e hoje oficialmente Bairro Farroupilha. Mas, não é um parque monumental?


*foi vereador na capital

**era o conhecido mini-zôo retirado dali em 2011, já se chamava de Palmira Gobbi, a icônica protetora dos animais da capital.


Parque da Redenção atrás das grades

Rubem Penz


Crônica publicada no jornal Metro em 01.10.2013


Gosto muito de escutar as opiniões das autoridades sobre segurança pública. Parecem especialistas em isentarem-se de responsabilidade, atirando a culpa pela violência no colo dos outros. E não quaisquer outros: das vítimas. Quem edifica uma bela parede branca, pede uma pichação. Quem permanece dentro do carro enquanto a namorada desce do apartamento, espera ter o carro roubado. Quem anda inadvertidamente na rua, suplica por um punguista. Quem veste tênis de marca, usa joias ou manipula smartphones em público, jamais pode se queixar. São pessoas que provocam.

Mas não são apenas as pessoas que andam abusadas: as coisas também perderam a noção do perigo. Onde já se viu prédio de escola sem um guarda fardado na entrada? Quem imagina um banco sem portas com detectores de metal? Ou uma janela no térreo (em alguns casos no segundo ou terceiro andar) sem grades? Onde já se viu uma farmácia sem câmeras de vigilância? Como pensar num prédio de classe média sem guarita blindada? Que automóvel teria coragem de sair da fábrica sem alarme, trava antifurto e, dependendo do modelo, GPS? Tudo o que estiver demonstrando fragilidade é porque, no fundo, pede a ação dos fora da lei.

A neurose da violência urbana pune apenas o cidadão cumpridor da lei. Verdadeiramente é ele quem está atrás de grades, cerceado em seu direito de ir e vir, exposto ao medo de se comportar mal – ao menos mal nesta lógica perversa dos que culpam a vítima. Acho que já escrevi isso antes, mas se me repetir não será em vão: em algum momento, nosso país achou mais lógico gradear todo mundo ao invés de manter presos uns poucos que mereceriam. Entre investir em escolas ou em prisões, escolhemos não investir em nenhum dos dois. Basta culpar a desigualdade social (como se bandido e pobre fossem sinônimos).

Agora, voltamos a debater o fechamento do Parque da Redenção à noite. Mais grades. Menos liberdade. Tudo muito lógico: se ninguém entrar no parque, ninguém suja o parque, ninguém estraga o parque, ninguém assalta no parque ou faz sexo no parque. Puna-se a todos ao invés de punir alguém. Onde já se viu um parque aberto? Está pedindo! Claro que tudo ainda pode piorar: sou obrigado a concordar com isso para ter (ou não) uma Redenção limpa e intacta. Porém, seguindo nessa onda, em breve os vereadores votarão o toque de recolher oficial como ação preventiva. E haverá quem defenda em nome da segurança.


QUARTA-FEIRA, 5 DE MARÇO DE 2014

Cantorias no parque – a parábola

Vera Renner



O Café do Parque deitou-se mansamente à beira do lago da Redenção trazendo um charme absoluto para as margens verdejantes do parque mais inusitado de Porto Alegre. Por muitas voltas que se dê em seu entorno, seremos sempre surpreendidos pelo inesperado. Assim foi com a dupla Claus&Vanessa que, como quem não quer nada, iniciaram as cantorias no Parque, em banquinho e violão, em um tablado ao ar livre, compartilhando com a exuberante natureza todos os seus sonhos. O agrado dos freqüentadores veio como uma das muitas surpresas deste lugar de todas as tribos. Chegou para ficar, todo domingo, conferindo o som. A cantoria da dupla foi se espalhando pelos gramados e tantas raízes, tomando conta da copa das árvores e calando todos os pássaros. Havia certo alvoroço da bicharada, na chegada do domingo, pois pensavam: lá vem nosso diapasão. Ao anoitecer, quando todas as gritarias de domingo se esvaíam lentamente do parque, era chegada a hora dos primeiros acordes eletrônicos da dupla que ali estava para cantar e encantar. Os famosos gatos da Redenção aumentavam seu olhar e brilho se enroscando nos arredores sendo imitados pelas carpas que apenas fluíam em seu nado, talvez para poder ouvir plenamente, a dupla cantante. E era a hora da chegada dos fãs, em fila indiana, na porta do Café, meninas e meninos querendo parecer a dupla, quiçá, o amor dos dois.O som leve, solto e romântico sobrevoa todos os caminhos e recantos da Redenção deixando a natureza surpreendida e calma e agora, mais do que nunca as cantorias do Parque da Redenção fazem parte da natureza.


NOTA – O CAFÉ DO LAGO foi fechado em 2015 depois de várias disputas entre o permissionário do local e os administratadores da cidade. Passou tempos em completo abandono. Neste espaço e no entorno há uma nova praça de alimentação sob concessão de uso.

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